O estudante Álvaro Luciano Borges Corrêa do curso de Pedagogia da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Uberlândia, orientado pela professora Adriana Pastorello Buim Arena, escreveu uma história a partir de um relato oral de Mauro Lucio Corrêa, como parte das atividades desenvolvidas na disciplina Metodologia do Ensino da Língua Portuguesa.
Áudio do conto histórias da boca do povo. Contador: Mauro Lucio Corrêa
Aventura ou Traquinagem?
Escrita por Álvaro Luciano Borges Corrêa
Em 1985, Mauro Lucio, entediado e sedento por mais uma de suas esporádicas aventuras de moleque travesso, vestiu os trajes de trabalho do seu pai, Geraldo Barraca, e, disfarçando-se muito bem como andarilho, ficou irreconhecível.
Era uma manhã nublada quando saiu pela vizinhança com aquela aparência artificialmente desmantelada, iniciou sua traquinagem, sem razões específicas, apenas pelo desafio de se passar por mendigo e conseguir persuadir os vizinhos sem ser reconhecido. O plano consistia em pedir alimentos aos moradores do minúsculo e pacato município de Guimarânia.
Não foi difícil encher duas capangas verdes, de pano, penduradas no pescoço de Mauro, pois os seus vizinhos se compadeceram da trágica história que ele inventara para justificar a condição de mendigo e o porquê de estar nas ruas pedindo comida. Certamente a sujeira (em especial, feita com barro, carvão e borra de café) espalhada estrategicamente pela face, braços e pernas, somada às vestimentas desgastadas e cheias de manchas e rasgos oriundos do trabalho pesado que seu pai exercia na época, ajudaram o adolescente travesso em sua encenação de pedinte e exploração da boa vontade dos guimaranenses aos quais ele bateu à porta durante todo o dia.
Naturalmente, era de se esperar que houvesse uma alma mais avarenta entre essas pessoas de bom coração, e esta era a Dona Natália, moradora antiga da Avenida Aymorés, uma mulher viúva com mais de 80 anos de idade. O mendigo não a poupou da molecagem e também lhe pediu alimento, alegando uma grande fome: “Dê-me algo de comer, peço-lhe humildemente. Qualquer quantidade é bem-vinda”, disse o pedinte. A anciã, mulher esguia e de cabelos tão brancos quanto uma paina que recém brota da paineira, negou com uma naturalidade assustadoramente natural e convincente: “Hoje eu não tenho nada para te ajudar, meu filho, minha despensa está vazia”, disse ela, num tom pesaroso e triste.
De modo a surpreendê-la, Lucio, ainda disfarçado como mendigo, disse à Dona Natália: “A senhora tem tanta coisa na despensa! Tem leite, frutas, hortaliças, carne e até banha de porco tem também. Mas Deus sabe disso e vai te castigar, pode ter certeza.” Após essa declaração, a senhora ficou atônita por aquele andarilho, aparentemente desconhecido e que continuava a ir de casa em casa para pedir por alimento, descrever exatamente o que ela possuía em seus armários e prateleiras.
A explicação para tamanha precisão naquelas palavras do homem maltrapilho não era sobrenatural, mas sim uma questão de coincidência. A velha possuía um filho de nome Altair, que morava na zona rural e sempre lhe trazia hortaliças, leite, queijo, ovos e carne nas suas visitas semanais. Por ser uma frequentadora assídua das celebrações de igreja e muito religiosa também, assim como a mãe do jovem Lucio, Aparecida, as duas eram amigas íntimas. Logo, Mauro era rotineiramente encarregado de ajudar o Altair, filho da vizinha, a descarregar os alimentos que ele trazia da fazenda para encher a despensa da mãe. Acontece que no dia anterior, o filho da Dona Natália veio a Guimarânia e Mauro o ajudou, como de costume, sabendo, portanto, tudo que a mulher teria na despensa até a próxima semana.
Ao anoitecer, Lucio decidiu encerrar a traquinagem e voltar para a casa, mas mudou de ideia rapidamente quando sentiu o cheiro de comida sendo preparada na casa do seu tio Antônio, um homem de grande gentileza e enorme barriga, pois gostava de comer em demasiada quantidade e sempre realizar banquetes fartos.
Tentado pela ousadia juvenil, aquele indivíduo maltrapilho dirigiu-se ao portão da casa, que exalava a fragrância dos bons temperos e boa comida, muito convidativos a qualquer um que passasse por ali, e, como um último ato na pele de mendigo, pediu por um singelo prato de comida. Sem nenhum receio, o seu pedido logo foi aceito, mas antes que fosse realizado (pois a janta ainda não estava pronta), Antônio conversou bastante tempo com ele, sem nem fazer ideia da real identidade do pedinte que estava na sua residência. Para que o disfarce continuasse de pé, Lucio respondia às perguntas do seu tio Antônio e repetia a história fajuta que inventara antes, com um tom de voz muito mais grosso do que o normal, e também sempre evitando um contato visual direto.
Após jantar com bastante apetite aquela deliciosa refeição, servida com muito afinco e generosidade, já era hora de retornar para a casa, pois a noite havia chegado e Lucio estava desde a hora do almoço sem dar as caras. Então, muito satisfeito pela fraternidade de seu tio, o agradeceu e seguiu seu caminho pelas ruas de Guimarânia.
Contudo, quando chegou em casa trajado como andarilho (muito sujo de carvão, barro e borra de café no corpo inteiro, além de estar cheio de alimentos em suas capangas, penduradas no pescoço), se deparou com a vizinha que duramente maldizera anteriormente na cozinha de sua casa. Dona Natália conversava pasmada com Aparecida, mãe de Mauro, totalmente em choque pelas palavras do mendigo que lhe visitara mais cedo, e, curiosamente, não havia passado por ali, na casa de Aparecida. Quando Mauro adentrou a cozinha naquelas vestimentas, a situação intuitivamente se esclareceu para a Dona Natália. O choque deu lugar ao alívio e a velha deu uma grande bronca no jovem, incentivada também pela Aparecida, que se enrubescera num misto de vergonha e raiva pela “arte” de péssimo gosto do filho.
Depois que a situação se esclareceu, a mãe de Mauro o obrigou a doar tudo que ele havia arrecadado em alimentos para a Sociedade São Vicente de Paula (SSVP), que posteriormente destinou tudo ao asilo (Casa de Repouso) de Guimarânia. Este causo também foi revelado a todos os vizinhos que ajudaram Mauro Lucio e, em especial, ao tio Antônio, que nada fez senão gargalhar energicamente ao ouvir a história do sobrinho.
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